terça-feira, 15 de agosto de 2017

UMA CAMISA À VARANDA



Uma camisa à varanda
- camisa cintada aquela -
e a dona por onde anda,
que não vejo, onde está ela?

Esvoaça alegre a camisa,
a meus olhos, num vaivém…
até parece que me avisa
da roupa que a dona não tem.

Vejo na corda estendida
o corpo fino da donzela
em forma de tara perdida
mas da dona, nem sinal dela.

domingo, 13 de agosto de 2017

A MÚSICA DO BEIJO


Quanta música há num beijo,
quanta área condensada
em movimento de solfejo,
dança lenta e ensaiada.

Os sons mudos misturados
da delicada sinfonia
são os beijos que são dados
de improviso, em sintonia. 

E baila, e baila sem parar,
beijo que é dado não cansa
(uma pausa para respirar…)
E siga o beijo, siga a dança.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

DOIS PAÍSES, DUAS CIDADES

Aguarela de Jacek Krenz

O olhar desvenda terras de Espanha e perde-se a vista. Melhor: no parapeito do Miradouro respira-se a cidade com que dormimos debaixo da almofada e sempre nos conforta quando, despertos, a contemplamos a cada manhã.


Em S. Gens sinto-me em casa:
fragrâncias, palácios, jardim…
o Miradouro é o golpe d’asa,
que espreita dentro de mim.

Aqui, exposto à claridade,
o casario que se emaranha;
mais além nasce outra cidade,
e lá longe adivinha-se Espanha.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CASA MORIBUNDA

Aguarela de Jacek Krenz

Contigua ao Arco, onde se sentam as duas mulheres, há uma velha casa em ruínas. O que resta dessa casa é a dor que sinto ao passar pelo Arco do Bispo.


Esconde-se a casa na muralha
(encostada ao arco, por esmola)
além,  a Praça, o museu, a escola
e aqui se encobre o que atrapalha.

E que vergonha tem a pobre casa
andrajosa, como indigente criatura,
três barrotes pregados à cintura,
o que já não adianta nem atrasa.

Solene, de emblema na lapela,
este sem mancha nem mazela,
evoca ainda o bispo padroeiro.

O venerável arco, sobranceiro,
faz pose ao turista a tempo inteiro,
a casa é que ninguém quer saber dela.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

COLCHA BORDADA

Aguarela de Jacek Krenz

Perante o Museu Tavares Proença Jr, só me ocorrem as colchas de Castelo Branco. E mais não teço.


A minha terra dava uma colcha bordada
a fio de seda sobre linho, como aguarela,
mostrando pássaros cantando a alvorada,
com lágrimas no peitoril da janela.

E as bordadeiras, que não as há de nomeada?

E árvores e ramos em arcos de festa!
Branda a cor de fundo, de humilde travo,
depois o grito exuberante que lhe empresta,
em vermelho viçoso, um elegante cravo.

Onde escondem elas as suas mãos de fada?

Estão no fim as meadas, são os últimos remates.
Lugar ainda para um pássaro preto, austero,
um taciturno cavaleiro, empoleirado bonifrates,
todo ponteado com amor e esmero.

Atrás dos panos se descobrem os fios à meada
e tudo o resto é colcha, colcha e mais nada.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

RUA DE STA MARIA

Aguarela de Jacek Krenz

Mil vezes por mim percorrida. Memória de cheiros a mesas postas e namoros recém- conquistados. Ultima rua de dentro, de dentro do coração.



Pelo sim, pelo não, bom dia!
pareceu-me ver-te à janela
e por pouco me confundia
nos tons desta aguarela…
És tu que tão bem conhecia
ou lágrima ao canto da janela
na rua de Santa Maria?


domingo, 6 de agosto de 2017

A JUNTA

Aguarela de Jacek Krenz

Castelo Branco é a única cidade europeia, Capital de Distrito, que administrativamente se constitui de uma freguesia apenas. Além disso, a freguesia abrange ainda as aldeias de Lentiscais, a cerca de uma dezena de quilómetros da cidade e Taberna Seca a cerca de 7 Km mas em sentido oposto ao daquela.

Da Granja só o nome,
que alfaias e sementes se foram com as crises
e há muito que não consome…
Mas por bem ficaram as raízes.

Tem um lugar de penumbra, qual quimera,
com modéstia, a multidão conjunta,
à vez alegre, solidária e austera
e, numa só palavra: a Junta ajunta.

sábado, 5 de agosto de 2017

CAMPANÁRIO

Aguarela de Jacek Krenz

Que fazes campanário?
Que silente o teu destino!
Sem mercê dum breviário,
nem o rebimbe de um sino.

Canta o galo a natureza
e por nós vê se afinas
nas vésperas, com certeza
e se for preciso, matinas.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

CIDADE

Aguarela de Jacek Krenz

Permanece, a espaços, a matriz da Cidade. Longe é certo. Mas tranquila e luminosa, como sempre.


Se te conheço, terra mãe e madrasta…
como não, se és tudo quanto basta
desde o berço à campa rasa…
e o segredo de me sentir em casa.

Desde menino, mas com o sol de fronte,
sempre te tive como horizonte:
alva, luminosa, e pouco dada a sobressaltos,
a não ser dos que te auguram saltos altos…

Com a Torre sempre além à espreita,
uma por outra vez com desfeita,
nem me lembro que há por aqui nova empresa,
que o tempo só me traz memórias da Devesa. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

VIELA DOS SABORES

Aguarela de Jacek Krenz


A Rua da Figueira parou no tempo. Só a restauração humilde, de altos e baixos, a tem mantido viva.


Em plena baixa uma viela,
da figueira nem um galho,
quase ninguém dá por ela
a não ser por ser atalho.

Pode ser que boa estrela
seja enfim a resposta:
que assomes de vez à janela
enquanto a mesa está posta…

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

ARRABALDES, ARRABALDES!

Aguarela de Jacec Krenz

As invasões francesas do princípio do século XIX arrasaram a Castelo Branco pobre e atrasada. A população local era de cerca de 3000 habitantes, equivalia a 10% dos militares ocupantes. Os arrabaldes foram a presa fácil da soldadesca.


Gritam os degredados. – A nós nos valham! –
E não havia ajuda que chegasse, que proveito houvesse!
- Aos de cá, que nos malham!
(apelavam) Como se aprouvesse, como se aprouvesse.

Secou depois a ânsia, a aflição
feito o largo e uma cruz em granito.
O cruzeiro é o de S. João,
o resto é o silêncio, jamais se ouviu outro grito…

terça-feira, 1 de agosto de 2017

CASTELO

Aguarela de Jacek Krenz

Já tudo foi dito sobre o Castelo. A aguarela mostra o que se vê quando o visitamos. Mas do Castelo vê-se toda a Castelo Branco…


Do Castelo vê-se o mar… Não vê?
Então é um mar de casas, e coisas outras mais à frente
Vê-se o que se quiser ver, não é?
É Castelo Branco aos pés, ali em frente.

Templários houve que o puseram em pé,
os demais o vão compondo de atamanco,
se uns e outros o fizeram de boa fé
não sei, sei que é Castelo Branco.

Às mão cheias levaram blocos de granito,
para tudo o que era casa ou ponte,
ditosos construtores de pecúlio aflito.

Hoje o que se enxerga de fronte
é Espanha, a cordilheira do horizonte
e atrás remanescências do infinito…

segunda-feira, 31 de julho de 2017

MÚSICA II

Aguarela de Jacek Krenz

Sineiro sou, de sinos, pois,
que outros há que a rebate
ou mudos, de enfeite, a dois,
que não sirvam a quem os trate?

Dou momentos, ave-marias,
horas mortas, desatino;
passo assim noites e dias,
ganhando p’ra corda do sino.

domingo, 30 de julho de 2017

MÚSICA

Aguarela de Jacek Krenz

O som sinuoso dos sinos
e os da pauta, do solfejo.
Lado a lado dois hinos
etéreos como um beijo.

Os sons e os símbolos divinos,
na praça repartidos,
da partitura aos sinos
são música para os ouvidos.

sábado, 29 de julho de 2017

PORTAS E JANELAS

Aguarela de Jacek Krenz

Memória de portados e janelas onde já ninguém se afoita. Agora é a nossa vez de os olhar.


Da janela vejo quem passa
e o mundo que passa por ela,
correndo além da vidraça,
olhando para a minha janela.

Batem-me à porta, breve
como um sussurro ou lamento.
Espreito pra ver quem se atreve:
nada mais além do vento…


sexta-feira, 28 de julho de 2017

RUA REI D. DINIS

Aguarela de Jacek Krenz


 Teimosamente chamada ainda “Pá Queixada” pelos mais antigos. Foi rasgada no início do século passado e logo se encheu de lojas comerciais. A modernização da cidade “limpou” a artéria mas permitiu que o seu coração sucumbisse.


Debruçado na varanda vejo o rio de gente correr…
Se há mar? Logo se há-de mostrar:
um que agora vai e outro que está para vir.
E se não houver, o melhor é ver,
que há sempre um mar para descobrir
e outro para naufragar.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

CINEMA

Aguarela de Jacek Krenz

O antigo Cineteatro Avenida, ou simplesmente o Cinema, espreita ali à esquina o novíssimo CCCCB… - Que há de novo? – Parece perguntar…



Entre os dois a escolha
fere a vista
a quem olha

E logo se diz ah:
tem uma pista
vá que não vá

Fugindo ao tema:
o que reter
a obra ou o sistema?

Não há dilema:
o que há para ver?
vou ao cinema

quarta-feira, 26 de julho de 2017

AMATO LUSITANO

Aguarela de Jacek Krenz


 Nascido albicastrense, em 1511, com o nome de João Rodrigues. Após cursar medicina em Salamanca quis regressar a Portugal. A Inquisição não autorizou, foi perseguido. Era judeu. Emigrou para Antuérpia e daí para onde pode caminhar como cidadão livre. A sua figura emerge na Praça do Município. Dá o seu nome ao Hospital Distrital e a uma das escolas secundárias. Disse dele em antologia evocativa:
Em estátua tens a verdade nua e crua:
foi-te a vida de saberes e de degredo
e agora, quieto, que apontas para a lua,
há quem insista e te olhe para o dedo.



Os Paços de quem fica e de quem passa
com pressa de ficar (pese o anonimato)
só de alma sabem quanta desgraça
outrora houve em nós por ti, Amato.

Tamanha gente, tamanha praça;

tamanho é o teu vulto e a tua raça.

terça-feira, 25 de julho de 2017

NO CORAÇÃO DAS HORAS

Aguarela de Jacek Krenz

O RELÓGIO DA TORRE

Constitui uma das principais memórias da cidade. A mais antiga, por certo. Apesar das inúmeras intervenções mantém o seu porte altivo como um farol, como “um velho de largas sobrancelhas emergido do casario”.


Na Torre, onde faz tempo,
as horas batem por fora
há um relógio por dentro
que faz o tempo hora a hora.

Marca as horas boas e más
com preceito e exactidão
de frente, de lado e de trás,
faz das tripas coração.

Marca a vida em compassos,
em esperas e pontualidade,
retalha o tempo em pedaços,
fingindo não ter idade.

A idade (provado assédio)
é o que o relógio recorda
e não resta outro remédio,
que paciência…  e dar-lhe corda.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

PARQUE DA LIBERDADE III

Aguarela da Jacek Krenz

“Senhora partem tão tristes”…
estes meus olhos por vos deixar:
- ai coração que não resistes,
promete que hás-de voltar.

A saudade me traz e me leva
em constante vaivém,
olhar que jamais releva
“outro nenhum por ninguém”.

domingo, 23 de julho de 2017

PARQUE DA LIBERDADE II

Aguarela de Jacek Krenze

Aqui desenho um sol maior para o meu pai,
quero que ele o veja mesmo ausente:
mentir por bem, quando por bem sai,
é a verdade que se diz e não se mente.

Pai, não te vou mentir:
o sol que me mostravas nas fotografias
é outro, que sou capaz ainda de sentir
como eu o via e tu vias.

sábado, 22 de julho de 2017

PARQUE DA LIBERDADE

Aguarela de Jacek Krenz


O Parque é o primeiro brinquedo
que nos é dado em criança.
Depois, o primeiro beijo em segredo,
e a lembrança, e a lembrança…

É a primeira lembrança
no retrato que levo guardado;
as aventuras de criança
e o primeiro beijo roubado…

Feito de água, de sombra e de frescor
dos lagos e das roseiras
ou aconchegos de amor,
quando o sol bate nas trepadeiras.

As sombras frescas e olores
(pulmão verde da cidade)
são outros tantos amores
do Parque da Liberdade…


sexta-feira, 21 de julho de 2017

JARDIM DO PAÇO III

Aguarela de Jacek Krenz

Não sei ainda o que era aquele amor,
sinónimo de água e efémera  claridade:

princesa de todo este terraço,
sei que Antheia era uma flor,
uma flor pulcra, perene e sem idade.

Eu é que a espero ainda no Jardim do Paço.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

JARDIM DO PAÇO ll

Aguarela de Jacek Krenz

O primeiro avanço era o lago
das coroas, onde ela se banhava nua…

Depois um beijo, um afago,
uma mistura inflamada de sol e lua.

Não sei se era Domingo ou outro dia qualquer,
o que então era água, flor e mulher.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

JARDIM DO PAÇO 1

Aguarela de Jacek Krenz

A par de todos os mistérios, o Jardim do Paço é o sítio dos encantos, que os albicastrenses guardam para o mais solene das suas vidas e os visitantes levam de recordação para os lugares de origem. António Salvado dedicou-lhe um livro de poemas. É um sítio de encantos.


Aqui esperava por ela
com o sol sempre de fronte.

Tardava como toda donzela
e eu ressequia, não fora a fonte.

Quando chegava, vestida de flores,
eram doiradas até as suas tranças pretas.

Acabavam as sedes, as ansias e as dores,
nada valia mais que um ramo de violetas.

terça-feira, 18 de julho de 2017

O PRESENTE PASSADO

A Junta de Freguesia de Castelo Branco editou recentemente um trabalho, em livro, em que participei, escrevendo sobre 28 aguarelas de Jacek Krenz com motivos da cidade e a quem muito agradeço a autorização para aqui as publicar. É sobre esta feliz parceria que a partir de hoje vos irei dando conta.

A rua Vaz Preto constituía o limite da muralha templária. Não obstante, a construção foi furando, foi minando, até ao desaparecimento em metade da rua. Uma pequena parte está hoje, de “novo”, a descoberto.


De tempos idos
os granitos do berço,
um dia esquecidos
de volta ao começo.

Do muro à muralha
da muralha ao muro,
memória nos valha:
há um muro passado
com o presente ao lado,
muralha que é futuro…

domingo, 16 de julho de 2017

O BICHO DA MADEIRA


Raque-raque, raque-raque,
já tinha ouvido o bicho,
vê-lo é que não,
muito menos em destaque
de natural pasticho
com focinho de cão
quase me dava um baque.

Cão de condição
e proveito
é cão de qualquer maneira.
Nesta versão,
por defeito,
desenhado na madeira
é ou não é cão?


sexta-feira, 14 de julho de 2017

COMO CANDEIAS


Deixamos nos outros um traço
de memória, um fio de voz,
e neles criamos um espaço,
que sendo alheio, somos nós.

Também dos outros temos
lembranças boas e más
e por mais voltas que demos,
é essa soma que nos faz.

O INCORRUPTÍVEL VOO DAS PEDRAS


O INCORRUPTÍVEL VOO DAS PEDRAS, À VENDA, EM CASTELO BRANCO, NO QUIOSQUE VIDAL

quarta-feira, 12 de julho de 2017

GATO


Faz-me festas, dá-me mimo,
não queiras que eu entristeça,
que eu quero ver se me animo
e levanto de vez a cabeça.

sábado, 8 de julho de 2017

UMA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL


Pelo que se vê
e não p’lo que se deduz,
nunca ninguém crê
naquele sinal de luz.

Faz tudo parte da vida
e de luzes é o que mais há:
tudo é caminho à partida
e à chegada se verá.

Partida a pedra da fé
restam cacos, coisa pouca
e o que foi já não é
excepto os amargos de boca.

É metáfora, sei bem
mas para quem está aflito,
o que aquele túnel tem
é, no fundo, um manguito.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

COMPLEXO

Foto do Blogue ARROZCATUM

D. Perpétua
disse, enferma,
que é efémera.
e eu, perplexo,
aceitei
a surpresa.
- Ora essa,
com certeza,
D. Perpétua,
quando lhe aprouver
faleça.

terça-feira, 4 de julho de 2017

CONSTIPAÇÃO


Não te exponhas tanto,
que te vais constipar.
Basta uma ponta d’ar
na espinha e te garanto,
é constipação certa
e uma porta aberta
para virares santo.

Evita o mau caminho,
não escolhas o atalho
e quanto ao agasalho,
tapa bem o corpinho,
que o tempo danado
quer ver-te constipado
- atchim! - Eu não disse? Santinho!

domingo, 2 de julho de 2017

O FARO DO CÃO


Para o cão não há bom ou mau cheiro
mas um apurado sentido do faro,
que tanto pode exalar de um boeiro,
com de frasco do Chanel mais caro.

Fareja alimento, o rasto de parceiro,
cus de outros cães e cadelas com cio
e passa a pente fino o mundo inteiro,
a eito, pela vida fora, de fio a pavio.

Tudo tem um cheiro para o cão
mas pode aqui dizer-se em seu abono,
que o bálsamo da sua predilecção
á o da pista que o leva até ao dono. 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

POEMA PARA RESPIRAR


- Dê-me oxigénio, por favor, uma pinguinha,
que a falta dele é bem capaz de me matar.
Fico roxo, boca aberta e em pele de galinha
e não me dá jeito morrer com falta de ar.

Felizmente ainda existe este ar que se respira:
consumido, maltratado, quanto baste poluído,
promete o seu ar de graça e a quem suspira
oferece vida airada, que é o meu ar preferido.

Sem abrigo e enjeitado, não respira nem ao relento
é o ar que nos dá, esse não passa de ar e vento.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O FIM DA INOCÊNCIA


Não dá para ser bonzinho
e ser o saco da pancada:
fartei-me desse caminho
sem nunca chegar à estrada.

Oferecer a outra face
somente por bem parecer,
obrigado, não se mace,
tenho mais que fazer.

Prefiro bater com a cabeça
numa parede bem dura,
do que esperar que aconteça
bom modo de cavalgadura.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

A NUVEM E A CEGONHA


Vou chover quando partires,
disse a nuvem à cegonha,
e do outro lado onde me vires
não choverei por vergonha,

ou em vez de chover, decanto
e de tal modo desbragada,
que às lágrimas do meu pranto
lhes chamarão trovoada.

Não o faço por malvadeza,
mal do tempo que é o meu fim:
são ardis da natureza
ao aproveitar-se de mim.

Sou como o Sol e o vento,
por isso não te admires
e, para teu conhecimento,
vou chover quando partires.

sábado, 24 de junho de 2017

CINZAS


O fogo consumiu as árvores;
o pó e a cinza ocupam agora
o lugar da sombra.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

SENHORAS DE BEM

Buy Le  Moulin de la Galette 1876 Pierre-Auguste Renoir

Senhoras de bem tomam chá e café,
enquanto se abanicam nas esplanadas
sociais e falam de outras da mesma fé
e condição, ali ao lado também sentadas.

Fazem tilintar os pechisbeques dourados
à vez, que usam no pulso e no artelho,
enquanto sorvem os chás de tília e os abatanados,
encardindo as chávenas de batom vermelho.

Fumam cigarros light e falam de nadas,
lidos em jornais de indistinta fantasia:
- meias verdades, contos de fadas,
e assim vão apatanhando a democracia.

Com sorte, os maridos deram o mote,
que as faz fazer figura com tal sabedoria
mas não os citam para que ninguém note,
que o penteado esconde a mente vazia. 

Mais um fait divers, uma nova baforada,
um segredo cabeludo, avulsas maledicências,
sublinhados com sonora gargalhada,
que apazigua as cinzentas consciências. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

AO DEUS DARÁ


Filipe II de Espanha, quando ordenou
a Invencível Armada contra os bárbaros do norte
e perdeu a frota e os marinheiros,
deveria ter concluído que Deus não vive a sul.
Ou, no pior dos cenários,
Deus, este que é o lábio belfo de Roma,
teria morrido afogado nas águas frias do Mar do Norte
muito antes Francis Drake disparar o primeiro tiro.
Mas nenhum deus morre
ou passa de um lado para o outro
sem o consentimento de um monarca como foi Filipe II,
para mal dos nossos pecados.

sábado, 17 de junho de 2017

ELE HÁ COISAS!


Há coisas que sim
e coisas que não.
Mais coisa, menos coisa,
coisas são.

Coisas do arco-da-velha
e outras que não têm fim,
que dão voltas, reviravoltas…
Nunca vi coisa assim.

E há coisas
que não são coisa nenhuma,
quando pensamos que há coisa
e a coisa não se consuma.

Dizem que há coisas e coisas,
verdadeiras, de fantasia;
coisas más e coisas boas
e coisas que eu nem sabia.

O que sobra é coisa pouca,
uma ou outra que espreita ou ousa
se for coisa que se veja,
como quem não quer a coisa.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

OLÍMPICA EPOPEIA


Alto é o alcantil,
a pedra em terra,
que o mar lhe foi ardil
e temor de finisterra.

Forte, o rochedo,
o destino adverso,
que converteu o medo
em universo.

Longe vai o mar,
as velas ao vento;
cansado de as olhar,
longe vai o tempo.

terça-feira, 13 de junho de 2017

OS LÁPIS DE CORES



Quando ainda nada sabia
já tinha uma pedra preta
de ardósia onde escrevia
muito antes de ter caneta.

Tinha caderno dos deveres,
livros com letras e flores,
tudo novidades e saberes,
e uma caixa de lápis de cores.

Quando andava na escola
tinha um tesouro metido
dentro da minha sacola
e todo o mundo lá escondido.

A régua, um lápis com borracha,
os ponteiros  e afiadores
todos alinhados numa caixa
e uma fortuna em lápis de cores…

São memórias que hoje tenho,
imaculada recordação,
quando os lápis de cores de antanho,
me vêm parar à mão.

domingo, 11 de junho de 2017

POESIA, ÀS VEZES



Quantas vezes te disse aqueles versos:
“Senhora partem tão tristes
meus olhos por vós meu bem”…
genuinamente de Camões – e tu acreditavas!
Eram de um tal Ruiz, nosso conterrâneo,
e tudo parecia igual à eterna Leanor descalça
por graça ou às tágides serviçais do canto primeiro…
Do canto jondo te falei e de Lorca
e de tristezas outras como o nosso fado.
O teu encanto era o porquinho amado
de Manuel Bandeira, a sua “primeira namorada”.
Enfim, nem deste conta do erro de geografia
na Lampara Marina de Neruda, mas não te culpo:
ele dizia o que havia para dizer e isso era o essencial.
Disso tive a certeza quando, já com toda a liberdade,
Eras tu quem dizia Gomes Ferreira ardendo
e Ary queimando e queimando-se a cada verso.
Havia outro ainda, que sendo singular Pessoa
era uma multidão de dores e sentimentos.
Por que haveria eu de saber mais pormenores
sobre a cigarreira do “menino de sua mãe”?
Era breve, eu sei, mas por isso mesmo
o tempo não ajudava mesmo nada
a quem, no meio de tantos poetas,
desvendasse que a poesia era a nossa vida iletrada.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

ALOENDRO



Se me enganas recorrendo
a poses de virgem ardente,
chamar-te-ei aloendro,
que mata traiçoeiramente.

Os panos de popelina
das pétalas que te esboçam,
são para mim a morfina
que os meus lábios adoçam. 

Ainda assim fico tentado,
tal é a embriaguez,
não vá de tal ficar augado,
pois só se morre uma vez…