terça-feira, 17 de outubro de 2017

PRAÇA DAS PALAVRAS



Uma procissão de palavras com maior
ou menor sentido, encharcadas de fé ou fértil imaginação,
caminha com devoção à frente do poema.
Alguma serventia terão. Mas não será por isso
que o céu a todas abrirá os portões de ouro e mogno
- que, sendo o céu o que é, assim deverá ser –
porque agora é tarde e faz tempo que o poema deixou a praça.
Ide, digo-lhes, por hoje é tudo,
amanhã  haverá nova safra e tudo começará de novo.
Cabisbaixas, regressam aos subúrbios da memória.
Oiço-as grazinar à medida que se afastam
porque é com elas que eu também regresso
e ao poema não importa a minha ausência.

domingo, 15 de outubro de 2017

DO USO DAS PALAVRAS



Gostava de saber se os papéis amarrotados
e postos por mim no lixo, cheios de palavras
inúteis, frases quase versos
foram recolhidos por alguém que, reciclando-as,
construiu uma história ou escreveu um poema.
Afinal, as palavras são iguais para todos,
basta arrumá-las na fórmula certa
para serem lidas e se tornarem literatura.
Gostava de saber se os papéis amarrotados
e postos no lixo tiveram mais utilidade
do que tudo o que, até agora, me serviu e publiquei.

Nada disto tem qualquer importância;
e eu lamento que isto não tenha importância nenhuma.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

UM SOL INSTANTE


Quando o sol arrefece,
a modos que entristece
em arrepiante glacê.
Apenas ri quando aquece
ou porque lhe apetece,
vá lá saber-se porquê.

Um ror de tempo enroupado,
sei lá eu em que vergonhas,
já não sei se dormes, se sonhas,
se o céu te traz ocupado
ou ficaste envergonhado
por ter chegado atrasado
à partida das cegonhas.

Este sol habituado
ao palco diurno do fado,
que nem por um dia se acoite,
se bem que triste ou magoado,
e mesmo se estiver cansado
nunca saiba o que é a noite.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

ETIQUETA(S)



Escarafunchar o nariz
com pretexto de asseio
não se aconselha, como quem diz,
é feio.

Com o mesmo dedo ali, além,
apontar a eito
é deselegante, não fica bem
e é mal feito.

Porém, se o gesto for para o céu
muda a opinião:
nem pecador nem ateu,
isso é cristão.

domingo, 8 de outubro de 2017

MANUAL PARA ESPECIALISTAS EM COMUNICAÇÃO


A aparência
será cordata,
fato completo, gravata;
tem mais audiência.

Palavras, as sensatas,
sem mistura:
algo entre a censura
e as alpercatas.

Política,
só a de lei
do governo, do rei
e da encíclica.

De borracha, as balas
são fogo amigo
o resto é contigo,
se não te calas.

E um último pedido:
o chefe é o chefe
enquanto for chefe,
bem entendido.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

ÚLTIMA HORA


Encharcado de notícias, assim estou eu.
Paridas pelo vento, órfãs de pai,
sebentas novidades de simulado museu.

Chapinho sem dizer água vai,
salpico-me de memórias que ninguém leu,
convencido que toda a nódoa d’água sai. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ELEIÇÃO


Carlota era uma mulher feliz
até que um dia, como agora diz,
procurou  taluda na matriz
e decidiu a questão com um xis.

Na verdade saiu-lhe furado
o intento de um bom resultado:
bom foi ele para o sítio errado;
acertou em cheio, mas ao lado…

Hoje grita: que “foi engano,
quis na conversa do fulano”
e agora lhe causa mais dano.

Carlota cuidou ser correcto
mas foi como engolir cianeto;
pior a emenda que o soneto!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

MANIFESTO


À frente, os da frente com bandeiras e protestos,
os de trás vão em frente com mais bandeiras.
Quando agitam as bandeiras todos protestam,
todos são a voz que exige, o punho que confirma.
A luta é exigente, o frente-a-frente:
à voz de em frente marcha toda a gente
ou há gente que a passo fica para trás?

Vamos em frente, protestos, bandeiras e voz,
todos, a nossa gente é toda a gente:
os que vão à frente e os que dão um passo em frente!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

UMA RACHA NA PAREDE


Abriu uma racha na parede
e eu fiquei contente.
Não escandaliza nem fede,
é uma racha decente.

De contorno agradável,
porém em rápida progressão
é uma racha de saudável
esmero e contenção.

Em nada intimida,
perturba, a insana coexistência,
entre esta racha exibida
e a minha consciência.

Sensual, quem não acha
ter assim perto de si
uma ostensiva racha,
que enquanto cresce sorri?

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

LUCIDEZ



Dói-me a cada dia um pouco mais
esta minha incurável lucidez.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

BUGANVÍLIAS


Podia chamar-lhes sinos se não fosse a haste
(não a alma)
que as eleva; se não fosse pagão o meu quintal.
Sobem as paredes, voam como podem.
Toda a fragilidade se transforma em volúpia,
o pátio enche-se de vermelhas mariposas.
Esta manhã são a causa essencial do meu sorriso.

sábado, 23 de setembro de 2017

ABRIR CAMINHO


Tocando a carga a mando, dia a dia,
e ajoelhando aqui e ali, quando calha,
não dá para ver (não é vida nem é via)
com quantos paus se faz uma cangalha.

Um olho basta aos dois que nos assistem;
um olho só pode ver toda a jogada
que eles, por serem cegos, cumulam, insistem,
com quantos paus se faz uma jangada.

Só uma solução existe, só de um modo,
e esse é o nosso canto, a voz que soa:
assim verão (quando, enfim, formos um todo)
com quantos paus se faz uma canoa…

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PLANO (INCLINADO)


Tenho um plano em mente;
inclinado é o plano, não mente,
pende para um lado, insistente,
o plano que tenho em mente.
Dito assim não parece plano,
é mais um pensamento insano,
como nódoa que cai no melhor pano,
por ora vai abaixo, pelo cano,

fica para o ano,
evidentemente.
É um plano
que tenho em mente.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

SUPERAÇÃO


A árvore não precisará de me escalar,
eu mesmo tomarei a iniciativa
de subir até à sua copa e de lá aceitar
o mundo, o que do mundo poderei ver.
Hei-de encontrar o modo de o fazer,
mesmo que a árvore não tenha tronco
e eu não tenha em que me apoiar,
mesmo que já não haja árvores no mundo
ou essa seja apenas uma desculpa minha.

domingo, 17 de setembro de 2017

TRISTEZA


Julguei triste a minha sopa de hoje
e era eu quem estava frio.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

DE PARTIDA



Parto. Levo as saudades escondidas
num embrulho pesado e clandestino
de muitas gerações. Não é por vergonha,
nem o peso de tanta mágoa me deixa lembrar
quanta verdade há entre o que digo
e o que realmente escondo e sinto em mim.

Sei que parto ou aos poucos vou partindo.
Parto de mim e isso quer dizer tudo: parto
como um pássaro que, arriba acima,
não sabe ainda se o golpe de asa lhe chega
para dobrar o pico e alcançar autonomia.
Contudo parto. Seja lá o que for a liberdade.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

ONDINA


Ondina veio de novo esta noite dar-me um beijo
enquanto dormia, enquanto sonhava,
enquanto me afogava nas águas de um pesadelo.
Ela conhece a minha respiração ofegante
e a estupidez da minha claustrofobia.
Diz-me que os seus beijos são terapia bastante
e as ondas sensuais do seu corpo são o embalo de que preciso.
Ela ama-me enquanto eu me amarro
de unhas e dentes ao bote que me leva mar adentro. 

domingo, 10 de setembro de 2017

TEMPO E HORAS


O tempo não é a corrida desenfreada
dos ponteiros do relógio.
Tempo e horas não são da mesma natureza:
horas são riscos, números, desencontros; e o tempo
uma nascente de água cristalina que se alarga
e ganha caudal, à medida que avança e dá lugar
a um mar de superfície azul, denso e de inquietude inexplicável.
Enquanto as horas se marcam e desmarcam,
favorecem ou molestam por serem horas boas e más,
faz tempo que o sangue me percorre as leiras
sequiosas e alimentam as minhas raízes sem fim.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

CEDO ERGUER


Sobre o ditado que diz
deitar cedo e cedo erguer
não passo de um aprendiz
sem saber o que fazer.

Dá saúde e faz crescer,
ditam as suas razões.
Mas para quê amanhecer,
se sabem tão bem os serões?…

Não cederei ao desplante
e fica assente, vou cumprir,
nem que para tal me levante
antes mesmo de dormir.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

PAPAGAIO DE PAPEL


Tive um papagaio de papel,
feito de canas, folhas de jornal
e um novelo de cordel
para a coluna vertebral.

E já no céu do céu,
de tão longe que se via mal,
aquele papagaio era o meu,
mais pequeno que um pardal.

Como os demais, voava,
esse era o meu intento.
Pobre na cor mas rodopiava,
que de cores não sabe o vento.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

PÁSSARO OCRE


Não era afinal de ouro
nem possuía riqueza,
e fosse embora tesouro
era-o por singela beleza.

Amarelo-torrado, canário,
tudo lhe ficava a matar;
profissional do canto, operário
de antes morrer que cantar.

Morreu ocre e mudo,
escravo do tudo ou nada,
sem liberdade e, contudo,
numa gaiola dourada.


sábado, 2 de setembro de 2017

PÔR-DO-SOL



O oceano e o céu ardentes,
como no fogo primordial
de achas rudes, incandescentes,
deste horizonte irreal.

Lá mais adiante falece
o meu olhar por delir de mais
e incrédulo por ver o que parece
o princípio e o fim, ambos reais.

Só porque o Sol sucumbiu
de novo à noite prestes a tombar
e o dia vivo por um fio
estrebucha de pavor e falta de ar.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

PÁTRIA


As brumas então cantadas
de pé, na escola, não eram
nuvens, mas palavras cifradas,
o que afinal nos deram.

Se era cantado era doce:
éramos demasiado pequenos,
eu julgava assim, fosse o que fosse,
farófias, do mal o menos…

Era porém memória espessa,
flagelada, onde assentava o destino
- de todos nós? Homessa! -
Não era cantiga, era o hino.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

PARDAL



O admirável pardal,
que sem andar não se atrasa,
faz ninho no meu quintal,
ganha o céu num golpe d’asa.

Pula, gracioso, saltita
e, sem se cansar jamais,
torna, esvoaça, debica,
que o primeiro é dos pardais.

Cinza é a cor; não a vida,
para ele prova de fundo,
dia a dia, sem guarida
ganha a rua e ganha o mundo.

domingo, 27 de agosto de 2017

SOBRE O PÃO


Ferra o sono o padeiro
cansado, durante o dia,
mas pão há o dia inteiro,
fresco, à venda na padaria.

Quem puder ferrar o dente
no pão (nosso) de cada dia,
pela hora do sol nascente,
há pão quente na padaria.

O pão é diário e persistente,
tão pertinaz como a fome
e contradição evidente,
excepto para quem o come.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

SOU UMA ÁRVORE


Sou uma árvore frondosa e viva,
não ardida. Das que não suplicam
quando estendem os ramos. Altiva,
acolho as aves que em mim nidificam.

Hei-de trepar as nuvens e o vento,
chegar ao sol sem me queimar.
Jamais me ouvirão qualquer lamento:
sou uma árvore, vivo do ar,

da água e da luz que me alimentam,
que trepam as raízes lá do fundo.
As minhas leis não se decretam:
sou uma árvore e todas as árvores do mundo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

TRAJE DE NUDEZ


A nudez é um singelo vestido
natural e de tão patentes formas,
que a simples venda do tecido
obrigaria a rigorosas normas.

Normas, porém, são o que são,
e é bom de ver já o aparato,
mercê das artes de corrupção,
luxuosas vestes expondo o trapo.

Mas os moralistas, não faltaria
esconderem de vergonha as caras,
que por pudor nos meteria
em camisas de onze varas.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

NEM SEMPRE


Aposto que hoje me esperavas
coberto de rosas, perfumado,
com um enorme chapéu de abas,
lenço e colarinho engomado.

Aposto que hoje me esperavas,
sorrindo de orelha a orelha,
prazeroso e mandando às favas
rancores e tudo o que se semelha.

Aposto que hoje me esperavas
desdenhando de tudo o que tenho:
terra seca e ervas bravas…
Não esperes, que eu hoje não venho.

sábado, 19 de agosto de 2017

FIGOS


Não me livro de castigos,
sorte a minha, que é tão pouca:
uns tantos comem os figos
e a mim rebenta-me a boca.

Há os lampos, de S. João
e ouriços da piteira,
uns são legítimos, outros não
têm eira nem beira.

Conduto, de quem tem
outras fomes, é como digo:
tudo o que nos sabe bem
é norma chamar-lhe um figo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O BEBÉ E O CÃO


Ladra o cão sem razão,
o bebé que não acorde,
o menino dorme e o cão
por ladrar não morde.

De ambos é condição:
um ladra, outro dormita,
as coisas são como são
haja quem o não admita.

Mais tarde ou mais cedo,
O bebé acorda e chora,
o cão amua de medo,
é a vez da criança agora.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

UMA CAMISA À VARANDA



Uma camisa à varanda
- camisa cintada aquela -
e a dona por onde anda,
que não vejo, onde está ela?

Esvoaça alegre a camisa,
a meus olhos, num vaivém…
até parece que me avisa
da roupa que a dona não tem.

Vejo na corda estendida
o corpo fino da donzela
em forma de tara perdida
mas da dona, nem sinal dela.

domingo, 13 de agosto de 2017

A MÚSICA DO BEIJO


Quanta música há num beijo,
quanta área condensada
em movimento de solfejo,
dança lenta e ensaiada.

Os sons mudos misturados
da delicada sinfonia
são os beijos que são dados
de improviso, em sintonia. 

E baila, e baila sem parar,
beijo que é dado não cansa
(uma pausa para respirar…)
E siga o beijo, siga a dança.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

DOIS PAÍSES, DUAS CIDADES

Aguarela de Jacek Krenz

O olhar desvenda terras de Espanha e perde-se a vista. Melhor: no parapeito do Miradouro respira-se a cidade com que dormimos debaixo da almofada e sempre nos conforta quando, despertos, a contemplamos a cada manhã.


Em S. Gens sinto-me em casa:
fragrâncias, palácios, jardim…
o Miradouro é o golpe d’asa,
que espreita dentro de mim.

Aqui, exposto à claridade,
o casario que se emaranha;
mais além nasce outra cidade,
e lá longe adivinha-se Espanha.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CASA MORIBUNDA

Aguarela de Jacek Krenz

Contigua ao Arco, onde se sentam as duas mulheres, há uma velha casa em ruínas. O que resta dessa casa é a dor que sinto ao passar pelo Arco do Bispo.


Esconde-se a casa na muralha
(encostada ao arco, por esmola)
além,  a Praça, o museu, a escola
e aqui se encobre o que atrapalha.

E que vergonha tem a pobre casa
andrajosa, como indigente criatura,
três barrotes pregados à cintura,
o que já não adianta nem atrasa.

Solene, de emblema na lapela,
este sem mancha nem mazela,
evoca ainda o bispo padroeiro.

O venerável arco, sobranceiro,
faz pose ao turista a tempo inteiro,
a casa é que ninguém quer saber dela.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

COLCHA BORDADA

Aguarela de Jacek Krenz

Perante o Museu Tavares Proença Jr, só me ocorrem as colchas de Castelo Branco. E mais não teço.


A minha terra dava uma colcha bordada
a fio de seda sobre linho, como aguarela,
mostrando pássaros cantando a alvorada,
com lágrimas no peitoril da janela.

E as bordadeiras, que não as há de nomeada?

E árvores e ramos em arcos de festa!
Branda a cor de fundo, de humilde travo,
depois o grito exuberante que lhe empresta,
em vermelho viçoso, um elegante cravo.

Onde escondem elas as suas mãos de fada?

Estão no fim as meadas, são os últimos remates.
Lugar ainda para um pássaro preto, austero,
um taciturno cavaleiro, empoleirado bonifrates,
todo ponteado com amor e esmero.

Atrás dos panos se descobrem os fios à meada
e tudo o resto é colcha, colcha e mais nada.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

RUA DE STA MARIA

Aguarela de Jacek Krenz

Mil vezes por mim percorrida. Memória de cheiros a mesas postas e namoros recém- conquistados. Ultima rua de dentro, de dentro do coração.



Pelo sim, pelo não, bom dia!
pareceu-me ver-te à janela
e por pouco me confundia
nos tons desta aguarela…
És tu que tão bem conhecia
ou lágrima ao canto da janela
na rua de Santa Maria?


domingo, 6 de agosto de 2017

A JUNTA

Aguarela de Jacek Krenz

Castelo Branco é a única cidade europeia, Capital de Distrito, que administrativamente se constitui de uma freguesia apenas. Além disso, a freguesia abrange ainda as aldeias de Lentiscais, a cerca de uma dezena de quilómetros da cidade e Taberna Seca a cerca de 7 Km mas em sentido oposto ao daquela.

Da Granja só o nome,
que alfaias e sementes se foram com as crises
e há muito que não consome…
Mas por bem ficaram as raízes.

Tem um lugar de penumbra, qual quimera,
com modéstia, a multidão conjunta,
à vez alegre, solidária e austera
e, numa só palavra: a Junta ajunta.

sábado, 5 de agosto de 2017

CAMPANÁRIO

Aguarela de Jacek Krenz

Que fazes campanário?
Que silente o teu destino!
Sem mercê dum breviário,
nem o rebimbe de um sino.

Canta o galo a natureza
e por nós vê se afinas
nas vésperas, com certeza
e se for preciso, matinas.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

CIDADE

Aguarela de Jacek Krenz

Permanece, a espaços, a matriz da Cidade. Longe é certo. Mas tranquila e luminosa, como sempre.


Se te conheço, terra mãe e madrasta…
como não, se és tudo quanto basta
desde o berço à campa rasa…
e o segredo de me sentir em casa.

Desde menino, mas com o sol de fronte,
sempre te tive como horizonte:
alva, luminosa, e pouco dada a sobressaltos,
a não ser dos que te auguram saltos altos…

Com a Torre sempre além à espreita,
uma por outra vez com desfeita,
nem me lembro que há por aqui nova empresa,
que o tempo só me traz memórias da Devesa. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

VIELA DOS SABORES

Aguarela de Jacek Krenz


A Rua da Figueira parou no tempo. Só a restauração humilde, de altos e baixos, a tem mantido viva.


Em plena baixa uma viela,
da figueira nem um galho,
quase ninguém dá por ela
a não ser por ser atalho.

Pode ser que boa estrela
seja enfim a resposta:
que assomes de vez à janela
enquanto a mesa está posta…

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

ARRABALDES, ARRABALDES!

Aguarela de Jacec Krenz

As invasões francesas do princípio do século XIX arrasaram a Castelo Branco pobre e atrasada. A população local era de cerca de 3000 habitantes, equivalia a 10% dos militares ocupantes. Os arrabaldes foram a presa fácil da soldadesca.


Gritam os degredados. – A nós nos valham! –
E não havia ajuda que chegasse, que proveito houvesse!
- Aos de cá, que nos malham!
(apelavam) Como se aprouvesse, como se aprouvesse.

Secou depois a ânsia, a aflição
feito o largo e uma cruz em granito.
O cruzeiro é o de S. João,
o resto é o silêncio, jamais se ouviu outro grito…

terça-feira, 1 de agosto de 2017

CASTELO

Aguarela de Jacek Krenz

Já tudo foi dito sobre o Castelo. A aguarela mostra o que se vê quando o visitamos. Mas do Castelo vê-se toda a Castelo Branco…


Do Castelo vê-se o mar… Não vê?
Então é um mar de casas, e coisas outras mais à frente
Vê-se o que se quiser ver, não é?
É Castelo Branco aos pés, ali em frente.

Templários houve que o puseram em pé,
os demais o vão compondo de atamanco,
se uns e outros o fizeram de boa fé
não sei, sei que é Castelo Branco.

Às mão cheias levaram blocos de granito,
para tudo o que era casa ou ponte,
ditosos construtores de pecúlio aflito.

Hoje o que se enxerga de fronte
é Espanha, a cordilheira do horizonte
e atrás remanescências do infinito…

segunda-feira, 31 de julho de 2017

MÚSICA II

Aguarela de Jacek Krenz

Sineiro sou, de sinos, pois,
que outros há que a rebate
ou mudos, de enfeite, a dois,
que não sirvam a quem os trate?

Dou momentos, ave-marias,
horas mortas, desatino;
passo assim noites e dias,
ganhando p’ra corda do sino.

domingo, 30 de julho de 2017

MÚSICA

Aguarela de Jacek Krenz

O som sinuoso dos sinos
e os da pauta, do solfejo.
Lado a lado dois hinos
etéreos como um beijo.

Os sons e os símbolos divinos,
na praça repartidos,
da partitura aos sinos
são música para os ouvidos.

sábado, 29 de julho de 2017

PORTAS E JANELAS

Aguarela de Jacek Krenz

Memória de portados e janelas onde já ninguém se afoita. Agora é a nossa vez de os olhar.


Da janela vejo quem passa
e o mundo que passa por ela,
correndo além da vidraça,
olhando para a minha janela.

Batem-me à porta, breve
como um sussurro ou lamento.
Espreito pra ver quem se atreve:
nada mais além do vento…


sexta-feira, 28 de julho de 2017

RUA REI D. DINIS

Aguarela de Jacek Krenz


 Teimosamente chamada ainda “Pá Queixada” pelos mais antigos. Foi rasgada no início do século passado e logo se encheu de lojas comerciais. A modernização da cidade “limpou” a artéria mas permitiu que o seu coração sucumbisse.


Debruçado na varanda vejo o rio de gente correr…
Se há mar? Logo se há-de mostrar:
um que agora vai e outro que está para vir.
E se não houver, o melhor é ver,
que há sempre um mar para descobrir
e outro para naufragar.